segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O balanço

Quando eu era criança havia um balanço numa árvore em frente à minha casa. Quase todos os dias eu e meus primos nos estapeávamos pra ver quem ficava no balanço... E isso era muito divertido. Eu era o mais alto, às vezes ganhava, mas meu irmão era o mais esperto, às vezes me tapeava e ficava no balanço no meu lugar. Então nos estapeávamos de novo, até que um de nós subisse ao trono glorioso do balanço.

Mas o que havia de especial no balanço? Bem, éramos sete crianças que tínhamos uma obsessão por aquele balanço e para nós ele parecia especial. Eu, por exemplo, amava balançar mais e mais alto, fingia que conseguia alcançar as nuvens e trazia pedaços delas para meus primos, contando aquela velha história de que as nuvens eram algodão-doce, todos saboreávamos e nos empanturrávamos dessa deliciosa receita imaginária, até que alguém me puxasse pra baixo e outro subisse no balanço. Subia então uma de minhas primas, que se balançava e dizia que era uma fada, que ia voar bem alto e fazer encantos pra deixar todo mundo feliz. E todos nós ríamos, porque o feitiço havia funcionado ao menos com a gente, porque pra nós parecia tão simples ser feliz.

No final da tarde, quando a gente chegava da escola e corria pra chegar no balanço,  muitas vezes nos frustrávamos, pois era o horário em que geralmente a minha tia encontrava o namorado e o balanço era dos dois, ela sentava no colo dele e os dois balançavam devagarzinho, trocando beijos e carinhos, promessas e juras de amor, queriam casar logo, ter filhos e uma casinha, começando pequena e depois ampliando. Nós ficávamos olhando de longe e rindo daquilo tudo, pois beijos pareciam tão nojentos e romances pareciam tão engraçados.

Com o balanço ocupado, íamos tomar banho, depois voltávamos: o balanço estava vazio, então corríamos pra árvore. Quem não subia no balanço, subia pelos galhos (todos éramos craques nessa habilidade). No balanço éramos reis, rainhas, príncipes, princesas, super-heróis e monstros, piratas e desbravadores, e éramos tudo e, acima de tudo, éramos simplesmente felizes.

Ficávamos até altas horas da noite, de vez em quando passava um carro na rua, os vizinhos quando nos viam nos cumprimentavam, de alguns até zombávamos, de outros tínhamos medo, e nos escondíamos quando passavam, mas não lembro de nenhum deles nos fazendo nada de errado, nada de mal.

Mas muito tempo passou, não há mais árvore, não há mais balanço. Meus primos cresceram, alguns casaram, outros estão trabalhando, uns foram para outras cidades e eu fiquei por aqui, vendo o verde virando concreto e a liberdade virando violência numa cidade que foi crescendo e cortando seus balanços.

Tomo o mesmo café todo dia, vou ao mesmo prédio onde trabalho, não tenho balanço e nem árvore no meu escritório, só uma cadeira com rodinhas e uma mesa com papéis e mais papéis empilhados.

Vira e mexe eu olho pela janela e olho uma casinha que tem ao lado, mísera construção diante de tantos prédios. Tem uma bela árvore na frente dela, mas nenhum balanço: que desperdício! Olhando aquela casa eu fico lembrando da infância, de mim, de meus primos e de como a vida era simples...


“Quem me dera ter um balanço numa árvore”, penso eu em meio aos papéis do escritório e imerso nos problemas do trabalho e de casa, “o balanço tinha uma magia diferente que fazia a vida, que é assim tão complicada, ser tão mais simples”.
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No início dessa semana, quis com essa crônica relembrar a simplicidade que era nossa vida nos nossos dias de infância.
Ainda lembro com certa clareza (e um pouco de fantasia) o modo simples que a vida era nos nossos olhos infantis e sonhadores, não haviam problemas, não haviam metas ou objetivos, apenas sorrisos e as lágrimas eram de incompreensão ou de joelhos ralados, que também deixam suas cicatrizes. Crescemos, somos adultos e temos nossas responsabilidades, as cicatrizes de antes levavam um tempo até sararem, as de hoje também, embora pareçam incuráveis.
Talvez seja essa incrível arte de ver a vida com os olhos de uma criança um segredo para uma vida um pouco menos dolorosa: o balanço é metafórico, ele não tem poderes mágicos, a magia acontecia nos olhos e sorriso daquelas crianças que haviam compreendido que podem ser simplesmente felizes... Como relembrar essa habilidade de ser feliz?

sábado, 6 de setembro de 2014

Antes tudo era Verbo

Recentemente tive algumas discussões muito interessantes com uma amiga, depois com alguns colegas da faculdade sobre o tema: "Quem é Deus?" e dentro desse descobrir quem é Deus, qual é o verdadeiro papel das religiões nesse caminhar.

Bem, aos leitores que não sabem, eu sou católico, mas não pensem que eu sou do tipo mente fechada, na verdade, minha visão sobre religião é bem ampla e aberta ao novo, o que algumas vezes acarreta crises existenciais muito interessantes.

Fora o papo religioso, acredito numa verdade universal, uma inteligência (ou essência se preferirem), que se revela continuamente à humanidade, que chamamos de Deus, Alá, Shiva, como preferir.

O poema de hoje fala disso e da busca de Deus dentro de onde ele pode ser encontrado: em tudo e, principalmente, dentro de cada um de nós.

Antes tudo era Verbo

Tudo um dia foi verbo,
Antes que tudo fosse carne,
Antes que a carne fosse vida.
Creio que o verbo era verso,
Somos filhos da poesia.

Somos herdeiros da poesia,
Embora tentemos ser o inverso,
Esquecendo a beleza do versar esta lida,
Não deixando que em nós o verso se encarne,
Esquecemos que grande parte de nós é verbo.

Esquecemos os textos e os vendemos num sebo,
Acredito que falavam de algo que nos irmane,
Que escrevemos achando encontrar a saída,
Mas disseram ser poemas baratos e do avesso,
Que acharíamos bonitos, mas ninguém leria.

Antes da carne e da poesia,
Antes dos filhos tornarem-se o inverso,
Antes que a vida não tivesse saída,
Antes que o tudo como vida se encarne,

Tudo era, éramos, é e somos filhos e parte do verbo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Encontros no ônibus lotado

Por volta de sete e oito da manhã é horário marcado pra sair de casa. Multidões se tornam massas nas correrias loucas dessa pequena grande cidade, dona de um trânsito que recentemente descobriu que conseguia também ser caótico a exemplo de algumas (verdadeiras) grandes cidades por aí. Quem viveu em Porto Velho antes de mim riria como de uma piada ao falar de ruas engarrafadas e lotadas de pessoas que se esbarram, cheias de compromissos, mas vazias de relações trocadas.

Mas tudo bem: eu sou dessa nova geração e estou acostumado. Pego de manhã cedo aquele bom e velho ônibus lotado, gosto de sentar no fundo (sou abençoado em morar próximo ao ponto final, ou ponto de início, no meu caso, o que me permite a gloriosa graça de poder sentar), com minha mochila nas costas e vestindo o uniforme, vou de segunda a sábado pra escola.  Vejo pela porta traseira entrar todo tipo de gente, e é engraçado pensar na grandiosa variedade de encontros de pessoas variadas que vivem nessa mesma cidade.

Num ponto entra uma garotinha de cabelos lisos penteados, vestindo um uniforme da escola, sua mãe a beija e acena enquanto ela entra no ônibus, ela entra sonhando um futuro brilhante, mas por enquanto, só queria mesmo um bom assento pra poder ir sentada.

Outro ponto. Entra aquele moleque de olhos inchados, querendo mesmo era voltar pra cama, provavelmente passou a noite em claro, no computador, primeiro conversando, depois jogando e o resto em sites proibidos, clicando e respondendo em tudo que lhe perguntava que ele era maior de idade, ia pra mesma escola que eu, mas nem sei direito o seu nome.

Nessa altura da manhã, o ônibus já está quase lotado, aquelas senhoras conversadeiras já estão com o braço erguido em minha frente, sustentando seus corpos obesos, e a cada freada do motorista, só faltam enterrar o traseiro em minha cara. Desvio pra evitar este constrangimento, batendo o olho em um casal apaixonado que sentou ao meu lado, transformando o banco conjunto do fundo do ônibus num daqueles motéis intrigantes onde se transa com roupa e tudo, quero rir, mas seria constrangedor, então olho pro outro lado, nem sei o que mais me envergonha: a transa vestida a direita, ou o traseiro gordo a esquerda. Volto a olhar pra porta.

Outro ponto. Entra aquele rapaz que não terá o mesmo futuro que o meu: chinelo de dedo, bermudas rasgadas e camiseta regata, usa um boné de aba reta, que virou modinha em todas as classes no último ano, entra com uma caixinha tocando um funk em volume alto (nada contra, até curto um pouco, mas um funk naquela altura a essa hora da manhã não é lá muito agradável). No outro braço carrega várias caixinhas de chicletes, que vai oferecendo aos tios e tias, em troca de algum trocado.

Nesse momento alguém sempre pede a palavra, algumas vezes é algum pobre coitado, dizendo que não roubará nem nada, mas que queria uma ajuda, em qualquer quantia pra comprar sua cachaça, digo, pra poder voltar pra casa. Outras vezes é algum iluminado, que recebeu de Deus a Palavra e que se não prestássemos atenção seríamos condenado. Enfim, ambos os casos são bem engraçados.

Outro ponto. Entra aquele senhor que veste roupas sociais, chapéu e óculos escuros, fico imaginando como ele aguenta vestir-se assim no calor dessa cidade. Ele entra e vai disfarçadamente olhando as mocinhas que estão indo pro trabalho, pra faculdade e pra escola, encostando seu corpo em muitas delas - velhinho tarado. E eu com vontade de rir, apenas disfarço e olho pro lado, o casal continua conectado por seus lábios e língua, olho por cima deles, uma mocinha de cabelos cacheados, pele morena e óculos tenta ler um pesado livro entre os solavancos da rua esburacada, recebendo, vira e mexe, tapas trocados dos doces apaixonados. Ela é bonita do seu jeito, mas pelo visto deve ser tímida e inacessível, daquelas que vive pra estudar apenas.

Outro ponto. Entra aquela senhora que acabou de sair do mercado, carregando um número absurdo de sacolas. Demora a entrar, empurrando a massa de gente, o cobrador quase entra em desespero para fazê-la passar pela roleta, ela passa empurrando pra chegar aos assentos preferenciais, mas estão todos lotados. Olho para os adolescentes sentados um do lado do outro em um banco ao lado dela, trocando mensagens pelo celular, riem do que um envia ao outro - quanta futilidade! Minha vontade era levantar e pedir pra que eles cedessem lugar à senhora, antes que as sacolas terminassem de entortá-la, mas estava muito longe e seria tão constrangedor fazer isso. Outra senhora, pouca coisa mais jovem, se levanta. “Não havia necessidade”, eu penso, “se aqueles adolescentes idiotas fossem um pouco mais educado.” Mas eu também não fiz nada, apenas julgo e fico calado.

Na verdade nem daria tempo pra revolta: meu ponto está chegando, me levanto e enfrento a grandiosa epopeia de cruzar um ônibus lotado, trocando odores com diversas pessoas, empurro, peço licença, passo por baixo de braços, tropeço e peço desculpas, puxo a cordinha (que está quebrada e só se encontra na frente), o sinal apita e o ônibus vai parando, já estou quase na frente, mas um senhor obeso não me deixa passar, o motorista se irrita e vai saindo, eu grito que ainda vou descer e a massa de pessoas grita junto, condoída como se também sentisse minha frustração. Ele esbraveja e para de novo, abre a porta, eu murmuro um “obrigado”, mas nem olho pra ele, duvido que ele tenha olhado pra mim também.


Desço, então, do ônibus. Olho de volta enquanto ele vai saindo, no fundo a mocinha de óculos parou de ler seu livro e olha pela janela, por um momento pensei que ela olhava pra mim, então sorri, mas ela não respondeu. Não era pra mim que ela olhava, era pro nada. Foi então que percebi, mais uma vez, que na correria de um ônibus lotado, em uma cidade lotada, várias pessoas se esbarram, várias cenas se entrecruzam e encontros inusitados acontecem, porém a maioria das pessoas está apenas olhando para o seu próprio nada, inclusive eu...
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Porto Velho está crescendo, eu sei. Talvez não o suficiente para tornar-se uma grande cidade, mas já vemos alguns sintomas dessa pós-modernidade "metropólica" que começa a infectar a nossa cidade. Basta sair de casa de carro, a pé, de bicicleta e de ônibus para sentir essa transformação.
A crônica de hoje se passa num ônibus, talvez você, corajoso leitor, já tenha passado por esse mesmo ônibus, talvez você seja até algum desses personagens que passam pela roleta, quem sabe você não é aquela moça sonhadora sentada no banco de trás, ou aquele impaciente que não sabe se se segura ou se olha no relógio pra confirmar que está atrasado.
Peguei e continuo pegando muito ônibus nessa pequena grande cidade de Porto Velho e já encontrei várias pessoas e algumas até me encontraram, mas nessa correria que inventamos, quem realmente encontramos nessa estrada?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Primeiro Passo

Àqueles que não me conhecem pessoalmente e profundamente, pertenço à uma família muito grande dos dois lados, tanto por parte do meu pai, quanto por parte da minha mãe, o que significa que tenho uma multidão de primos de diversas faixas etárias.

Hoje quero falar dos mais novinhos deles pra introduzir minha poesia. Observei muitos deles crescerem e lembro como cada um deles começou a andar.

É engraçado e muito fofo ver uma criança dando os primeiros passos: ela observa, faz força pra levantar e cai com a bunda no chão, dá uma risada, bate palmas, tenta de novo e vai repetindo esse ciclo até que surge ele: o primeiro passo. O glorioso momento que, hoje em dia, é filmado pelos pais e comemorado entre as lágrimas de mães emocionadas.

Assim é a vida: primeiro vem o tombo, só depois o passo. Primeiro a gente chora, depois aprende a sorrir, e esse é o fluxo eterno da vida, com vocês, um dos meus textos preferidos.

Primeiro Passo

Primeiro o tombo
E só depois o primeiro passo.
Antes o tombo, só aí passo
E então alguém nos leva pelo braço.

Abraço,
Trabalho, salário, cansaço.
Primeiro o tombo,
Depois o primeiro passo.

Compasso,
Beijo, traição, amasso.
Se não há tombo,
Não há passo.

Nervos de aço,
Carinho, cuidado, não passo...
Tem o tombo,
Daí vem o passo.

Início,
Engatinho, chorando, disfarço.
Primeiro vem o tombo
E só então o primeiro passo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A Odisseia de Alberto

Quando o despertador toca no dia após o domingo, Alberto vira quantas vezes pode na cama, pedindo a Deus para que seja a continuidade de algum sonho, que na verdade ainda está começando a noite... Mas o despertador é insistente, sabe que há compromissos a serem cumpridos, afinal: é segunda-feira.

- Odeio segunda-feira. – diz Alberto a si mesmo.

Então acorda, desliga o desesperado despertador, levanta-se da cama, acaricia a dama que deitava ao seu lado, não são casados, mas era quase, poderiam casar-se um dia, mas por que arriscar um relacionamento que dava tão certo? Dá um beijo nela, e a deixa terminar de acordar, sai do quarto e toma um banho rápido, apenas para afugentar o sono e a ressaca que sobrara do dia anterior, ou do sábado, ou da sexta. O final de semana costuma passar tão rápido que nem se sabe mais a origem de cada ressaca.

Apressadamente vai até a cozinha e põe a água pra ferver pra passar o café, poderia comprar uma cafeteira para agilizar esse processo, mas o café no coador era muito mais agradável. Tira, então, um saco de pão de forma da geladeira e o coloca no micro-ondas para esquentar um pouco, poderia comprar pão quentinho na padaria da esquina, mas o pão comprado junto do rancho já era o suficiente.

Pão esquentado, café passado, Júlia, a dama que anteriormente dormia, senta-se à mesa com um vestido florido que combinava com seus cabelos castanhos escuro e cacheados, o corpo magro, porém dotado de um sensualidade única, e um sorriso meigo que encantava qualquer olhar. Ele a beija enquanto serve o pão e a manteiga na mesa, podia dizer algo romântico, mas não havia a menor necessidade e nem havia tempo pra isso.

O celular toca: o chefe logo cedo avisa que vai chegar tarde, que Alberto precisa ir logo abrir o setor, afinal, o atraso de um órgão público nunca cai na cabeça do servidor, mas do chefe, o que cai na cabeça do servidor são os gritos e injúrias do povo que encontra o atraso. Alberto podia ter dito que iria em seu horário normal, mas não precisava arrumar problema com o chefe, pois, talvez cumprindo além do seu dever, conseguisse uma gratificação, assumisse algum novo cargo ou fosse indicado a alguma chefia.

Engole, então, o café, enquanto Júlia o pede pra ir com calma, que o mundo não vai acabar se ele chegar um pouco mais tarde. Ele ri da tolice da namorada: “Tempo é dinheiro”, justifica a si mesmo e parte para o carro estacionado na garagem, um carrinho velho, que já tem há muito tempo, podia comprar um carro novo, mas não caberia no seu orçamento.

Sai acelerado, chega ao trabalho. Enfia-se em processos, conta piadas, levanta argumentos, discutem e fazem silêncio, cada um precisa de um momento de concentração e descontração, podiam trabalhar mais na amizade e coleguismo, mas cada um depende de seu cargo e precisam da produtividade, serviço público é nome muitas vezes, o que vale são os interesses e todos têm aquele mesmo interesse: o cargo comissionado.

Alberto senta, levanta, carimba, assina e digita, lembrando dos tempos áureos da faculdade, nos quais bebia e fazia farra, enquanto sonhava em ser juiz, depois promotor, por fim auditor, delegado, advogado e aí passou no concurso pra agente administrativo, podia ter tentado outras coisas, mas no fundo sempre odiou o curso de Direito.

Faltando meia hora para o fim do expediente, todos param, afinal, a hora da saída é hora muito aguardada, podiam todos antecipar o trabalho do dia seguinte, mas aí onde ficaria a ansiedade de ir pra casa? Guardada na gaveta?

Uma e meia mostra, então, o relógio da parede, que unifica todos os relógios. Todos levantam e na corrida desenfreada tentam chegar na folha de ponto que passa de mesa e mesa, ponta a ponta, os mais espertos já haviam assinado a saída.

Alberto volta pra casa, almoça as sobras geladas do almoço, com preguiça de esquentar a comida que Júlia deixara na geladeira. Tira depois a camisa e os sapatos e liga o ventilador com o pé. A mesa da cozinha vira, então, escritório, tira os pratos, deixa na pia, podia lavá-los, mas Júlia faria isso quando voltasse da lojinha onde trabalhava, passa um pano na mesa pra tirar as sobras que escaparam do prato e coloca sua pilha de apostilas e livros: é hora de estudar para o próximo concurso, a chance de sua vida! Dessa vez daria certo!

Alberto podia tentar outras coisas, queria ser escritor, mas isso não dá dinheiro, não dá sucesso, era o que ouvia desde a adolescência: “Faça Direito, meu filho”, seus pais e professores lhe disseram.

Após a tarde de estudos, Júlia chega em casa, os dois discutem, a discussão diária que faz parte da vida dos dois, depois fazem as pazes, podiam ir ao cinema, afinal é dia de promoção, mas não há tempo, não há ânimo. Deixam a TV ligada... Assistir que é bom não conseguem: a mente está desligada; vão para o quarto.

Júlia procura por Alberto na cama, mas ele está muito cansado, podiam se amar um pouco mais, mas amanhã será outro dia cheio, deixa isso pra sexta a noite, deixa isso pro sábado e mais uma no domingo, quem sabe?

Então dormem, apagam no quarto com a central de ar ligada. Alberto sonha com uma vida mais agitada, Júlia sonha com um marido mais presente em casa, uma marido com quem ela nem sequer era casada.

O despertador, então toca, Alberto vira quantas vezes pode na cama, pedindo a Deus para que seja a continuidade de algum sonho, que na verdade ainda está começando a noite... Mas o despertador é insistente, sabe que há compromissos a serem cumpridos, afinal: é terça-feira.

- Odeio terça-feira. – diz Alberto a si mesmo..
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Essa crônica dispensa meus comentários, quero apenas desejar uma ótima quarta-feira a todos os "Albertos" que a lerem.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Indecisão

Hoje deixo outro poema, agora sobre Indecisão... Quantas vezes somos levados a seguir por caminhos distintos, fazer escolhas, pular ou ficar parado, nosso coração acelera e o mundo gira, tudo parece ao mesmo tempo dar muito certo e muito errado. Esse texto de hoje fala desse sentimento, do arriscar-se e do exitar. Espero que gostem e continuem acompanhando minhas viagens textuais.

Indecisão

Dar um passo no passo escuro,
Um passeio sem volta e sem fim.
Dou passo, outra hora corro,
Outrora me despeço de mim.

Compasso que une dois passos,
Batuque da velha batera,
Que no peito lateja, eu acho,
Lutando o homem e a fera.

Disfarço: me olharam nos olhos,
Foi meu reflexo que o fez,
Me olhando, com medo e retalhos,
No espelho, julgando o que não fiz.

Abro espaço, a incerteza pede vez,
Uma vez que preciso arriscar.
Arrisco, com o medo que me fez,

Fazendo-me arriscar! É preciso... Recomeçar?
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Apenas um breve pós-escrito: depois de publicada a crônica sobre nossa amiga Capitu, fervilharam várias garotas que se encontraram ou desejaram ser como ela. Agradeço à querida leitora e amiga Elisandra Freitas que chegou a uma bela conclusão deixada nos comentários: "Acredito que todas as meninas tem um pouco de 'Capitu' em si". Quem ainda não leu, confira, pois foi muito gostoso escrever e dar vida à essa Capitu que tantas pessoas gostaram.




segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Capitu no sábado a noite

Sábado à noite, pouca coisa ou quase nada pra fazer. Enquanto a maioria das pessoas fica comentando nas redes sociais, fingindo que terão uma noite empolgante, alguns, como Capitu, ousam sair do virtual para o real e aventuram-se na noite em busca de um sentido para a vida.

Capitu é uma jovem livre em seus pensamentos, aprisionada pelos pais, ou melhor, os pais acham que a aprisionam, mas, assim como a Capitu de Machado de Assis, a nossa Capitu não se deixa controlar, é um espírito livre como de cigana, e possui aqueles mesmos olhos de ressaca, porém agora com duplo significado: a ressaca do mar que arrasta os mais sãos homens para seus truques e seduções, e as ressacas das latas e long neck de cerveja e copos de vodka, whisk e outros tantos que nem sei listar.

Capitu é bela, mas às vezes se acha feia, às vezes se acha gorda, às vezes se acha linda, às vezes é viciada em academia, às vezes nem liga pro que se acha, só quer rir e rir, sem saber do que está rindo, às vezes ri até de si mesma. Ah, Capitu!

Capitu é tantas coisas que eu me confundo de tanto escrever sobre ela e, se eu não tomar cuidado, todos os parágrafos começarão com esse nome: Capitu... Enquanto esqueço sutilmente de escrever a história que queria contar sobre ela.

Meu problema é que Capitu é bonita como nenhuma outra, com seus olhos esverdeados, cabelos castanhos, o corpo recém-modelado pela academia. A que ontem era chamada de gorda, hoje passa pelas ruas ouvindo “gostosa”, e segue em frente, não liga, ela é livre, ou acha que é livre, nem sei, só sei que é linda a Capitu.

Mas chega de falar sobre ela e voltemos ao sábado à noite, quando Capitu parte pra mais uma festa, não preciso citar lugares, pois Capitu pertence ao mundo e não a lugar algum. Capitu dança, vive, se alegra e bebe. Beija aquele rapaz moreno e alto, de corpo esbelto, e bebe. Dança mais um pouco, esbanja a sensualidade, sorri enquanto lembra que a chamavam de gorda e, então, bebe.

- Capitu, já chega. – diz a voz em sua cabeça, Capitu diz que não, respondendo pra amiga que a fazia parar. Capitu é livre e está feliz, feliz!

Capitu samba, dança valsa, dança xote, dança forró e funk e bebe. Capitu domina a todos e todos pensam que a dominam, mas ela é livre, então sorri, ri, fala besteira e bebe, as amigas a seguram:

- Para com isso, Capitu.

E aí Capitu só vê a escuridão, some a memória, horas parecem minutos, minutos sufocam as horas e o dia amanhece. Abre então os olhos de ressaca a nossa Capitu: é domingo, não é mais sábado, está deitada em um sofá, ou será uma cama? A cabeça lateja e ela ainda ri à toa, é livre e feliz, mas até quando?

As amigas surgem e explicam que a protegeram, Capitu queria fazer milhares de besteiras, mas elas a impediram, grandes amigas: salvaram Capitu outra vez.

Capitu repete pra si a ladainha de que é feliz quando faz isso, mas se olha no espelho: maquiagem borrada, sorriso desfeito. É livre e é feliz, mas de que jeito? Lembra que a chamavam de gorda, lembra que não lembra se transou com quem seja essa noite, lembra que é livre, mas não sabe nem sequer o que é liberdade, lembra que é feliz, mas não sabe o que é felicidade. Então a forte Capitu solta uma outra Capitu escondida em seu peito e chora.

As amigas a abraçam, encostam suas cabeças sobre a dela, são três, inseparáveis, um grupo de aventuras incontáveis, são elas as duas outras partes de Capitu. O calor do abraço espanta a ressaca. As frustrações da noite anterior viram piadas. No final não era a festa, não era a liberdade, mas sim quem estava com ela. Capitu redescobre em cada gole a sua verdadeira felicidade nas amigas que a amparam, e faz isso com frequência. Sorri, vive e bebe, abraça e beija quem quer. A felicidade constante encontra mais tarde: no afago das amigas que não a deixam, em quem confia plenamente.

E então, será que Capitu é feliz? Será que deve ser julgada? Será que o que faz é errado?


Bem, fica você aí pensando, que Capitu vai continuar dançando, beijando e bebendo, sendo quem ela é, com um sorriso no rosto, mandando pra merda, falando o que pensa, abraçada com suas amigas, pois Capitu é linda, Capitu é livre... Ou não?
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Qualquer semelhança é mera coincidência. Embora saiba que provavelmente isto será lido por várias "Capitus".
Enquanto a você, caro leitor, pode julgar, amar e apreciar ou condenar e odiar Capitu, o que importa é que ela continuará sendo Capitu e que só ela poderá dizer se é ou não feliz.
Eu julgo que ela é feliz a seu jeito. Então, boa sorte com seu julgamento....